sexta-feira, 1 de junho de 2012

campeão em busca da miséria

aprendi direito:
rolar ladeira abaixo.
meu corpo, minha alma
conhecem a aerodinâmica
não-resistente
de quem rola
com facilidade.

sou a velocidade exponencial
aceleração sem limites
de quem se vê luz: divino
borrão estático: um
círculo
é infinitamente lento.

cair é erótico
gostoso e sincero
o gozo de
pés balançando
(sem rumo certo).

mesmo que sem objetivo
um caminho sempre tem fim
um ponto
arbitrário
que me diz: olá!

e eu
(mancha na terra)
sorrio vazio -
agrados horríveis
punhetas enluvadas do prefeito
antiinflamatórios regidos pelo copyright
meus direitos constitucionais invioláveis de herói nacional.
continuo cavando,
invisível,
até virar chão.

sábado, 28 de abril de 2012

nuvem

   Leandro não, porque era burro. Marcelo não, era muito rico. Marcos não, porque era feio. Maurício não, falava demais. Tiago não, era judeu. Sobrou então Fernando para vencer.
   
   Começa simples: na escola, um dia, percebe que sua prova era outra. Resolve-a como sempre resolvera, sem pensar muito. Depois conversa com os colegas e as questões são diferentes. Não totalmente, mas as dele pareciam todas ter uma informação a mais. Uma mistura de dica e mensagem. Ignora; por que pensar sobre isso?

   Depois as mulheres o amam mais. A gasolina custa um pouco menos. Acorda e o cabelo está penteado. As lâmpadas acendem quando se aproxima. Os temperos sempre vêm de acordo com seu gosto.

   Aos 23, faz-se um filme quase por acaso. Todos parecem um pouco mais qualificados do que se esperaria. Os críticos encontram nuances nas palavras do roteiro e nos olhos dos atores nas quais ele nem pensara. É um sucesso, na medida do possível - do seu possível.

   Sua carreira avança independente de sua vontade - as coisas fazem-se a si mesmas. O quarto filme é um libelo - contra tudo de ruim e por tudo de bom. Todos que vêem se sentem representados. É eleito prefeito.

   Enquanto governa, os impostos caem e os empregos crescem. Nenhum escândalo. Ele não se lembra de metade das coisas que faz. Casa-se com uma mulher boa. A festa é transmitida na tv - muitos rezam por sua felicidade e para que ela esteja à sua altura.

   Acorda um dia presidente. Outros países anseiam por serem absorvidos pelo seu. É declarado filho de Deus. As crianças que o beijam aprendem a voar. Para de envelhecer. Quem o vê desiste de guerrear.

   Certo dia todo o mundo vai para o céu. Menos ele, que fica sentado jogando cartas.

   Todos voltam anos depois e o matam. Vai para o inferno e descansa. 
   
   Eles começam a pensar no próximo. Se não, o quê?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

escape de emergência

a indecisão geométrica do rei
é o fim.

Um passo
outro passo
e um monstro-
rasteja muy ridícula uma farsa.

Dos olhos muito muitos da estrada
uma lua se espalha sem pesar -
o asfalto entre o musgo é apenas
o asfalto entre o musgo.

Sem relevo e sem pressa de poema
pus-me pronto e louco a explorar
a explorar o fim do verso e do mundo todo;
encontrei apenas rimas sem seu par.

Solução: um mundo de rastejo;
resposta: um universo absorto em lar -
a narrativa não lhe cabe mais, poeta
a história não lhe deve mais um fim.

Somos todos infinito heroísmo
ou então as paredes vão cair;
os gemidos já lhe faltam um castigo
os passivos mereciam fim melhor --
despejemos então um possível medo
d'um desejo fatal, um perdão agora.
(gritos túnel nave moça)
Não, não há saída --

As palavras se dissolvem, oração.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

retrato do artista enquanto

eu queria ser o diabo
e não eu.

precisava lamber suas coxas soneto
lamber suas coxas soneto
vejo a janela quebrar
só a cachorra late
mas ninguém.

meu peito enclausurado de medo
de não ser
quem?

meus passos são apenas passos
no asfalto
sem métrica e sem janelas
sem eu

lamber as ruas
por quem?

seus beijos versos heróicos
que beijos?

pálpebras treinadas para ausências
o canto do meu quarto tem a minha forma
e só a minha
só.

a boca fechada sem setas
tem um eclipse do mundo
que ninguém vê.

queria cuspir na mesa
um coser de coisas
minhas e minhas
que não são.

e sou passos
sem gritos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

phantasmagoria

os fantasmas violentam o passado

com braços soltos despregados
os olhos de vinil d'um tigre
esmagam afobados o caminho:
as ruas nunca se fazem de lei.

um bloco de vazio
talhado feito mar
um galope de senão
visto em risada má.

há passos na pedra
os pés de um pânico
que atravessa
pão
a
pão
os braços dados de amantes mortos
que ainda não sabem que já morreram
e por isso mantém eretos esqueletos esfacelados
que logo se tornarão arquitetura.

as sombras sem sombra percorrem as ruas
violando túmulos esquecidos e riachos invisíveis
botas pesadas que escoam pelo chão.

as cidades que lambem suas pálpebras
lagartos de veneno macio.

eu vivi pompéia no vento
e locarno no alto
e medina na cruz.
e perdi
devagar
os mapas
e
as ruínas
com cuidado
avancei
trieste
cruzadas
foguetes
errados
aquedutos
perecer.

defora do mercado
prossegui
exaltado
a procissão.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

o diabo, certamente

o diabo sentado à mesa
espera paciente a sua água
bebericando um vinho mediano
olhando o mar se desfazer.

o diabo joga ping-pong com a canhota
para dar alguma chance
à menina de sorriso torto e sapatilhas
(o navio singra sem se importar).

o diabo se despede
com elegância
de um amigo.

o diabo lê os jornais de hoje
como quem procura algo
mas é mentira:
apenas lê
os jornais de hoje
e ri do que há para rir.

o diabo, ao caminhar,
não pensa em nada.

o diabo: enfadado com a televisão
faz aparecer um programa melhor
com o poder do pensamento.

o diabo não se pronuncia
quanto aos planos de um amigo -
silencia impassível como um portão.
observa o rapaz se afastar
e enxerga desenlaces
(mesmo os becos às vezes dão à luz um final bom).

o diabo reza
à sua maneira
e pede favores que ele já esqueceu.

o diabo
pensa o mundo
com as mãos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

impressão de um rei deposto

um sol entrelaçado
não diz palavras doces.
um sol entrelaçado
não ecoa.

olhar os dedos vibrantes
perceber que isso não é um sonho.
isso não é sonho.
as regras do jogo
as regras do jogo são as mesmas de antes.

o seu olho se projeta
espe(ta)cular
e mente pertinentemente sobre a grama.
(a grama não cresce enquanto você olha
a grama morre todo dia)

ser outra pessoa é sonho de prometeu
mas não importa o quanto você se queime
por baixo da sua pele só há mais pele
e por baixo dessa pele
fica o outro lado: nada.

por isso olhar longe
e se ver
mãos desconhecidas
um passo que pousa às costas.

um velho cujo olho treme
desaparece antes de aparecer
luz de truque
uma coluna de ar muito estreita pela qual se pode ver
uma orelha desconhecida e impressionante
e surda.

marchar dançante rumo a um lago seco
e observar a luz secar
e cegar peixes de memória.

o homem vai
deixar os pés sumirem
rumo a um olhar que quer
destronar um chão.